Mulheres

A expressão no meio do caminho

Convincing the bossA linguagem utilizada por mulheres executivas em reuniões pode afetar sua participação em Conselhos. A conclusão é de Judith Baxter, autora do livro “Double-voicing: Power, gender and linguistic expertise”. Em sua pesquisa sobre o padrão de fala entre líderes homens e mulheres em reuniões no ambiente corporativo, ela constatou que a linguagem utilizada no Conselho é um fator que influencia a escassez de mulheres no comando.

Em contextos profissionais e esferas de liderança, as mulheres aprenderam a usar o “discurso bivocal”, conceito teórico de Mikhail Bakhtin que define a habilidade de se conscientizar sobre os propósitos e intenções de interlocutores, ajustando sua linguagem ao falar. Em outras palavras: é quando a pessoa ajusta o que tem a dizer à luz do que ela acha que seus interlocutores querem que ela diga. E o estudo da Dra. Baxter descobriu que mulheres usam o discurso bivocal quatro vezes mais que homens.

Ainda que a pesquisa tenha mostrado poucas diferenças entre a linguagem de liderança masculina e feminina — os homens podem ser cooperativos e as mulheres podem ser assertivas —, o maior uso feminino do “discurso bivocal” ficou evidente. Essa distinção fundamental mostrou que as mulheres são quatro vezes mais propensas que os homens a ser autocríticas, a qualificar seus comentários e a falar indiretamente ou se desculpar quando abordadas sobre assuntos difíceis com os membros do Conselho ou ao lidar com conflitos.

Mas por que mulheres líderes tendem a usar mais esse recurso em reuniões de Conselho? “Talvez porque quando estão nessas arenas se sintam como exceções à regra e, portanto, experimentem um maior escrutínio de seus pares homens quanto à forma como se expressam. Esse ajuste da linguagem funciona como uma estratégia de sobrevivência. Mas, por outro lado, isso pode ser percebido como insegurança e falta de domínio dos argumentos que apresentam, levando à diminuição do respeito e autoridade em reuniões”, observa Dra. Baxter.

Claro, nem todas as mulheres hesitam diante dos outros, deixam de ser assertivas ou se rebaixam ao se comunicar. Mas altas executivas ainda são punidas quando abandonam características tipicamente femininas, se são mais duras ou firmes, por exemplo. E o temor de ser malvistas por não se comportar de acordo com as expectativas de gênero pode estar relacionado a esse maior ajuste na linguagem.

Por essas e outras, continua sendo necessário desafiar os estereótipos de gênero e combater a forma como mulheres são julgadas, para tornar Conselhos mais diversos e equilibrados. Na verdade, a capacidade de se ajustar ao outro revela maior grau de empatia, uma habilidade social sofisticada e desejável em bons líderes. Mas, é preferível saber se ajustar de forma estratégica, já que se justificar em demasia e ter excesso de autocrítica podem ser fatais para um líder.

Considerando que a comunicação é algo fundamental para líderes, a consciência quanto à forma de se expressar é um fator relevante para mulheres que querem jogar o jogo nas esferas mais altas do mundo dos negócios, ainda predominantemente masculinas. Então, vale o cuidado para não fragilizar nem a mensagem que querem passar, nem sua reputação como líderes.

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