Mulheres

Ascensão lenta, ainda…

Businesswoman standing outside office buildingOutro dia, conversando com uma especialista alemã que veio ao Brasil a convite de uma grande companhia para ajudar a facilitar a ascensão de mulheres a cargos de liderança, constatei como a realidade pode ser subjetiva. Explico: ela me disse que tem a impressão de que nossos altos executivos parecem mais abertos para falar sobre a questão da mulher do que os europeus. Para ela, na Europa eles se sentem mais ameaçados do que aqui — ficam tensos e desconfortáveis só de marcar uma reunião sobre o tema, por exemplo…

Será mesmo que nossos líderes são mais tranquilos que os europeus para discutir o assunto? Mais tolerantes? Ou será que essa segurança em endereçar a questão existe por não se sentirem ameaçados? Por acreditarem, no fundo, que quase nada pode mudar e, portanto, não há com o que se preocupar de fato? — Um efeito contrário ao da Europa, onde as reivindicações têm mais chance de se tornar realidade.

Basta lembrar que o Brasil ficou na 62ª posição (entre 186 países) no ranking do último report anual sobre disparidades de gênero do Fórum Econômico Mundial. A principal autora do relatório e responsável pelo programa de Líderes Mulheres do Fórum, Saadia Zahidi, aponta que o Brasil está entre os países que fizeram investimentos importantes em educação de mulheres, mas não removeram os obstáculos à sua participação na força de trabalho. Isso significa que não estão tendo retorno sobre seu investimento no desenvolvimento de metade do seu capital humano. “Esses países têm um pool de talento qualificado, mas que não é aproveitado”, diz.

(Onde estará o país elogiado pela pesquisadora alemã…?)

O ponto essencial para que esse cenário realmente se transforme é mudar a mentalidade sobre a capacidade feminina. Quem defende é Sheryl Sandberg, autora do best-seller Faça Acontecer. Para ela, é preciso combater o “leadership ambition gap, que começa desde as primeiras interações sociais das crianças na escola. “Desde o ensino médio, pesquisas revelam que mais meninos do que meninas afirmam querer liderar algum dia. E, desde cedo, elas aprendem que não devem ser mandonas”, aponta.

Não admira que, pelo 8º ano consecutivo, a quantidade de mulheres como membros de Conselhos ou em posições executivas no mundo praticamente não mudou. Segundo pesquisa da Catalyst do ano passado, o número de mulheres ocupando assentos em Conselhos ficou em 16,9%, contra 16,6% em 2012.

Por um lado, ainda que lentamente, pouco a pouco temos visto mais mulheres no topo de grandes companhias do mundo. Mas, mesmo em países com políticas favoráveis ao equilíbrio entre os gêneros no trabalho — como Noruega e Suécia, por exemplo —, há uma questão das escolhas e preferências. De acordo com estudo da socióloga Catherine Hakim, apenas 20% das mulheres se dedicam totalmente à carreira, 20% optam exclusivamente pela família e a maioria (60%) deseja o melhor dos dois mundos. Como diz Saadia, “as mulheres hoje sabem que há um trade-off, que precisam fazer suas escolhas. Mas, se transformarmos o contexto, certamente elas farão escolhas diferentes”.

Com as mulheres controlando a maioria das decisões de consumo das famílias, a nomeação de mulheres para cargos de liderança — e Conselhos — não é apenas politicamente correto, faz sentido econômico.

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